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Quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete? Quantas são as máscaras necessárias para evitar a célere loucura de uma alma sensível exposta à vil mediocridade cotidiana? Quantos somos, afinal, em um coração ou em um cérebro?
Uma vez uma fábula moderna comparou ogros à cebolas, e sou obrigado a concordar (no que tange às camadas, não a fazer mulheres chorar) com a metáfora. Assim como sou obrigado a concordar com os invisíveis magos que fazem do caos primevo seu maior artifício, ao abolir o “eu” e ao se deferirem a si mesmos, o fazerem em um coletivo “nós”.
Tantas são as personas quanto são os sonhos deixados para trás; em nossas cabeças há espaço mais do que suficiente para cada deus, deusa, herói ou monstro já imaginado. E este que escreve, maior covarde de todos, brincou e enganou sob tantas formas e máscaras que cansou de si de tal maneira que não encontra refúgio nem semelhantes.
O coração ainda bate, mais selvagem que nos seus anos em que neve não havia em seus cabelos; o espírito ousa e os olhos sorriem, mas onde encontrar uma palavra de afago, uma aventura, um suspiro de menina? Como saciar esta fome que consome, as páginas em branco, o turbilhão de idéias que não propicia o descanso?
Vivendo mil vidas em tinta e papel, rasgando pele, músculos e tendões que aprisionam todos os sonhos do mundo. Esquecer a gloriosa ruína que me tornei e abrir a janela e deixar o vento soprar a poeira do conformismo e as teias de aranha do receio para longe. Sou livre lançando meus pensamentos sobre o mundo, e o resto… Nada mais é do que a fita de tecido que marca a página do tempo que me resta.


