Malabarista de Palavras
Certa vez nos encontramos, você e eu, numa das encruzilhadas nos caminhos de aço e plástico tão comuns às grandes cidades. Provavelmente você não se recorda; estava atarefada entre o ir e o vir, e eu estava apenas pedindo uns trocados. Entre uma olhada e outra no celular, provavelmente mais smart do que eu poderia ser, perguntou o meu ofício.
Se eu fosse um tantinho mais sincero, eu responderia “saber”… mas como a sinceridade tende a atrair a hostilidade e a verdade nesses dias de inverno é vista como algo perigoso, resolvi deixar a verdade dentro dos meus bolsos e respondi que meu ofício é apenas jogar palavras para o alto e não deixar que caiam fora de seus lugares.
É, eu sei: essa parte costuma arrancar alguns risos tímidos, alguns de espanto e outros de pena. Estou acostumado; nem todos nascem para serem médicos ou advogados, e acredito que qualquer atividade que coloque o pão na mesa acaba por me servir. Lembro que me perguntou se eu não sentia falta de segurança, sendo malabarista.
Segurança, palavra bonita . Vou até dar uns passos para trás, porque tenho que me preparar ao arremessar essa para o alto. O que? Causa assombro? Deveria, senhorita, essa palavra é perigosa!
Segurança é a maior inimiga dos mortais – e a frase não é minha, acredite. E já que tenho que lidar com essa terrível fera, desejada por muitos, pois não compreendem quão perigosa ela pode ser, e só vêem a bela pelagem e esquecem dos terríveis dentes que podem destruir a criatividade e a verve do homem que a possui, permita-me repassar o único jeito de domar esse bicho arisco, ensinado por um cavalheiro que era muito bom em criar trabalho para os outros: O único tipo de segurança que o homem pode ter é uma boa reserva de experiência, habilidade e conhecimento. É desse tipo que a mui hermosa moça queria?
A-Ha, vejo que nem tudo esta perdido, senhorita: Os belos dedos de pianista tremem sutilmente; os olhos dardejam em busca de algo que não sabe muito bem o que é. Ouça bem a canção deste momento; é um tipo de ave que a canta, não sabes? Feia em plumagem e enxotada por todos, mas canta as mais belas canções e possuem o dom mágico de fazer os homens e mulheres que a escutam mais sábios. Escute a dúvida.
O que? Já desististe da segurança? Não, tudo bem, deixe-a para aqueles que não precisam, tanto assim, da sua criatividade. Pergunta-me sobre o conforto? Tenho, acho, as palavras certas!
Conforto, vendido e separado
como verbo, adjetivo e substantivo
cada vez mais caro!
digo-te não
conforto bom é barato!
chocolate na boca
sol no inverno
e brisa na praia
comida de avó
isso sim, é conforto!
que dura até os oitenta
e não gasta.
… e obrigado pela moeda!
Conforto é fazer o que se faz de melhor, livre e desimpedido como o respirar. É ser livre em qualquer pele ou máscara que se vista, com espaço suficiente para uma boa espreguiçada. Comfortável é confabular com todos os seres viventes, visíveis ou não. É ter nascido há dez mil anos atrás e não ter nada que não saiba demais/ de mais


